A acne é uma condição dermatológica comum e multifatorial, mas em pacientes transmasculinos ela assume um papel ainda mais relevante devido à sua forte associação com a terapia hormonal masculinizante com testosterona. Uma recente scoping review intitulada “Acne in Transmasculine Patients” analisou criticamente a literatura disponível e trouxe dados importantes para a prática clínica dermatológica.
Alta prevalência de acne em pacientes transmasculinos
A revisão avaliou 38 estudos, totalizando 12.010 pacientes transmasculinos, e demonstrou que a prevalência de acne varia amplamente, de acordo com a metodologia utilizada:
- 61,9% em estudos com escalas clínicas padronizadas
- 29,6% em revisões retrospectivas
- 31,3% em estudos baseados em autorrelato
Esses números evidenciam que a acne é uma condição frequente nessa população, reforçando a necessidade de vigilância dermatológica desde o início da terapia hormonal.
Quando a acne costuma surgir após o início da testosterona?
A maioria dos estudos mostrou que a acne tende a se desenvolver entre 6 e 12 meses após o início da testosterona, período em que ocorre a maior elevação dos níveis hormonais e da atividade das glândulas sebáceas. No entanto, alguns casos foram relatados já no primeiro mês, e outros até 24 meses após o início da terapia, indicando grande variabilidade individual.
Idade é um fator associado ao desenvolvimento de acne
Um dos achados mais consistentes da revisão foi a associação entre idade mais jovem e maior risco de acne. Pacientes que iniciam a terapia hormonal em idades mais precoces parecem apresentar maior suscetibilidade ao desenvolvimento da doença, possivelmente devido à interação entre testosterona exógena, atividade sebácea basal e fatores genéticos.
Dose e via da testosterona não mostraram associação significativa
De forma relevante para a prática clínica, a revisão não encontrou associação significativa entre acne e a dose de testosterona ou a via de administração (injetável, transdérmica ou outras). Esse achado sugere que outros fatores além da testosterona isoladamente participam da fisiopatologia da acne em pacientes transmasculinos, como microbioma cutâneo, resposta inflamatória e predisposição individual.
Impacto psicossocial e barreiras no cuidado dermatológico
Além dos aspectos clínicos, o artigo destaca o alto impacto psicossocial da acne nessa população, que frequentemente enfrenta barreiras de acesso à saúde, estigmatização, desconfiança nos serviços médicos e altas taxas de comorbidades psiquiátricas. Esses fatores podem agravar a percepção da doença e dificultar o seguimento terapêutico adequado.
Lacunas na literatura e perspectivas futuras
Os autores ressaltam a necessidade de mais estudos prospectivos, com métodos padronizados de avaliação da acne, maior inclusão de adolescentes transmasculinos e investigação aprofundada sobre:
- Papel de diferentes esquemas hormonais ao longo do tempo
- Estratégias terapêuticas específicas para essa população
- Impacto da acne na qualidade de vida e saúde mental
Conclusão
A acne é uma condição comum, precoce e clinicamente relevante em pacientes transmasculinos, especialmente em indivíduos mais jovens. Embora esteja fortemente associada ao início da terapia com testosterona, dose e via de administração não parecem ser determinantes isolados, apontando para uma fisiopatologia mais complexa. O reconhecimento precoce e o manejo dermatológico adequado são essenciais para reduzir o impacto físico e emocional da doença.
Confira aqui o estudo na íntegra