Tricoscopia pode ajudar a prever a resposta ao tratamento da alopecia androgenética?

A tricoscopia já ocupa um papel importante no diagnóstico e acompanhamento da alopecia androgenética (AGA). Mas sua utilidade pode ir além da identificação da miniaturização folicular: determinados marcadores tricoscópicos podem fornecer pistas sobre a resposta ao tratamento e contribuir para uma abordagem mais individualizada.

Essa é a discussão proposta por uma revisão sistemática publicada em setembro de 2026 no Journal of Cosmetic Dermatology, que avaliou a relação entre parâmetros tricoscópicos quantitativos, gravidade da AGA e resposta terapêutica.

Quais marcadores merecem atenção?

Os autores revisaram estudos publicados entre 2021 e 2026, com foco especialmente em três parâmetros: variabilidade do diâmetro da haste capilar (HSDV), relação entre fios terminais e velos (T/V) e percentual de fios velos. Devido à heterogeneidade dos métodos, dispositivos, critérios e momentos de avaliação utilizados nos trabalhos incluídos, os resultados foram analisados de forma qualitativa.

Variabilidade do diâmetro da haste capilar

A maior variabilidade do diâmetro reflete a coexistência de fios terminais e fios progressivamente miniaturizados, uma característica importante da AGA.

Segundo a revisão, a redução da HSDV durante o tratamento pode funcionar como um marcador sensível de resposta, refletindo aumento da espessura dos fios e possível reversão do processo de miniaturização. Essa mudança pode ser detectada antes que a melhora seja tão evidente pela simples contagem de fios ou pela avaliação clínica.

Relação entre fios terminais e velos

A relação terminal/velo (T/V) também aparece como um parâmetro relevante para o acompanhamento longitudinal.

Uma relação reduzida está associada à miniaturização ativa. Em contrapartida, o aumento da relação T/V durante o tratamento pode indicar melhora da saúde folicular e aumento da proporção de fios terminais, acompanhando uma resposta terapêutica favorável.

Percentual de fios velos

Outro dado que pode ajudar a dimensionar a atividade da doença é a proporção de fios velos.

Percentuais mais elevados estão relacionados à maior presença de folículos miniaturizados. No acompanhamento, a redução dessa proporção pode sinalizar controle da miniaturização e recuperação folicular, funcionando como parâmetro complementar à HSDV e à relação T/V.

Da fotografia clínica ao acompanhamento quantitativo

Um dos pontos mais interessantes da revisão é a possibilidade de ampliar o papel da tricoscopia no seguimento da AGA.

Em vez de depender apenas da percepção subjetiva do paciente, da avaliação clínica ou de fotografias seriadas, parâmetros quantitativos podem ajudar o dermatologista a documentar alterações microscópicas ao longo do tratamento.

Na prática, mudanças tricoscópicas precoces podem fornecer evidências de resposta antes de uma melhora cosmética mais evidente. Isso pode ser particularmente útil em uma condição cujo tratamento exige acompanhamento prolongado e na qual a percepção de ausência de resultados pode comprometer a adesão.

Os autores também discutem o potencial futuro da integração entre tricoscopia quantitativa, inteligência artificial e outros biomarcadores para tornar a avaliação da AGA progressivamente mais objetiva e personalizada.

Ainda existem limitações

Apesar dos resultados promissores, os achados devem ser interpretados com cautela. A própria revisão destaca diferenças entre dispositivos, métodos de mensuração, pontos de corte, definição de resposta e períodos de acompanhamento nos estudos disponíveis.

Essa heterogeneidade ainda dificulta a definição de valores universais capazes de determinar, isoladamente, se determinado paciente responderá ou não a uma terapia. Os autores apontam, portanto, a necessidade de padronização e validação dos parâmetros tricoscópicos em estudos futuros.

O que fica para a prática clínica?

A principal mensagem é que a tricoscopia pode ser vista não apenas como ferramenta diagnóstica, mas também como instrumento dinâmico de acompanhamento da AGA.

Monitorar de maneira seriada a variabilidade do diâmetro dos fios, a relação terminal/velo e a proporção de fios velos pode acrescentar dados objetivos à avaliação da resposta terapêutica e ajudar a identificar mudanças foliculares antes que elas sejam claramente perceptíveis clinicamente.

Embora ainda sejam necessários protocolos mais padronizados, os achados reforçam uma tendência importante na tricologia: transformar sinais tricoscópicos em parâmetros mensuráveis que possam apoiar decisões terapêuticas cada vez mais individualizadas.

Referência:
Manik M, Jusuf NK, Hermansyah D, Putra IB.
Trichoscopic Markers as Predictors of Treatment Response in Androgenetic Alopecia: A Systematic Review. Journal of Cosmetic Dermatology. 2026;25(9). Publicado em 15 de setembro de 2026.