A isotretinoína continua sendo um dos tratamentos mais eficazes para acne moderada a grave, especialmente em pacientes que não respondem adequadamente a terapias convencionais. Apesar de seus benefícios amplamente reconhecidos, uma preocupação recorrente entre médicos, pacientes e familiares envolve um possível impacto da medicação no crescimento linear durante a adolescência.
Agora, um novo estudo publicado no JAMA Dermatology por Schmidt et al., traz evidências robustas sobre o tema e os resultados são tranquilizadores.
Isotretinoína e crescimento: existe relação?
O estudo avaliou se o uso de isotretinoína durante a adolescência estaria associado à redução da altura final na vida adulta.
Para isso, os pesquisadores analisaram dados de 379.196 indivíduos com acne na Dinamarca, em um estudo transversal populacional de base nacional. Foram incluídos homens convocados para o serviço militar obrigatório e mulheres voluntárias entre 2001 e 2015, com cruzamento de dados de prescrições médicas e registros nacionais dinamarqueses.
Os participantes foram divididos entre usuários de isotretinoína, antibióticos orais da classe das tetraciclinas, terapias tópicas para acne e um grupo de referência sem tratamento prescrito ou diagnóstico hospitalar de acne.
O que o estudo mostrou?
Os resultados demonstraram que o uso de isotretinoína na adolescência não esteve associado à redução da altura adulta.
Entre os homens, a diferença média ajustada de altura em relação ao grupo de referência foi de apenas 0,31 cm. Entre as mulheres, a diferença foi de 0,25 cm — valores considerados clinicamente irrelevantes pelos próprios critérios do estudo.
Além disso, os achados permaneceram consistentes mesmo quando os pesquisadores analisaram:
- idade de início do tratamento;
- dose cumulativa de isotretinoína;
- risco de baixa estatura como desfecho secundário.
Segundo os autores, não houve evidências de comprometimento do crescimento linear relacionado ao tratamento.
Por que esse estudo é importante para a dermatologia?
A preocupação com possível impacto da isotretinoína no crescimento surgiu principalmente a partir de relatos isolados e de efeitos observados em situações específicas envolvendo altas doses prolongadas de retinoides sistêmicos.
No entanto, faltavam estudos populacionais robustos capazes de avaliar essa associação em larga escala.
O novo trabalho ganha relevância justamente por reunir uma amostra extremamente ampla e utilizar dados nacionais prospectivamente coletados, oferecendo evidências mais consistentes para a prática clínica.
O que muda na prática?
Os achados ajudam a trazer mais segurança para a tomada de decisão compartilhada entre dermatologistas, adolescentes e familiares.
Embora a isotretinoína continue exigindo acompanhamento rigoroso e avaliação individualizada, especialmente pelos seus potenciais efeitos adversos e contraindicações, o estudo sugere que o receio de prejuízo à altura final não deve ser um fator isolado para evitar ou postergar o tratamento em pacientes com indicação adequada.
A importância da decisão baseada em evidências
Em um cenário marcado por excesso de informações e receios frequentemente disseminados sem contexto científico adequado, estudos como este reforçam a importância da medicina baseada em evidências na dermatologia.
Mais do que discutir riscos potenciais, é fundamental compreender a qualidade das evidências disponíveis, individualizar decisões e oferecer ao paciente informações claras, equilibradas e cientificamente fundamentadas.
Referência:
Schmidt SAJ et al. Isotretinoin Treatment in Adolescence and Adult Height. JAMA Dermatology. Published online May 2026.
Schmidt SAJ et al. Isotretinoin Treatment in Adolescence and Adult Height. JAMA Dermatology. Published online May 2026.